Palavras fora de uso

Ao lembrá-la, eu me reporto aos tempos das malhas Corrigan, que eram a atração do Magazine Batista nos meses de inverno. Verdade seja dita, eram peças de lã que nunca tinham fim

A cada dia, novas mudanças no mundo, tanto físico como social, moral e até espiritual. Daí, os conselhos são unânimes: “Viva o presente”, “Não se demore lembrando o passado, siga em frente.” Entretanto, para o nosso grupinho de amigas da maior idade – beirando os 90 anos, um pouco mais, um pouco menos –, essa não é tarefa nada fácil. Em nossas agradáveis conversas do café da tarde – uma vez por mês –, damos largas às recordações de um passado comum, que nos fortalece para darmos prosseguimento às nossas vidas, superando a dor das saudades e revivendo os entes queridos que nos antecederam na despedida.

Talvez por isso aconteça, seguidamente, que uma palavra não me saia da cabeça. E fico a repeti-la mentalmente, e não a encontro em parte alguma das leituras que faço. Dessa vez, a palavra é redingote. Alguém a conhece?

Pois ao lembrá-la, eu me reporto aos tempos das malhas Corrigan, que eram a atração do Magazine Batista nos meses de inverno. Verdade seja dita, eram peças de lã que nunca tinham fim. Blusas, casaquinhos, pantalonas. Não embolavam, como as atuais e só nos desfazíamos delas porque mudávamos de corpo e não nos serviam mais, ou por cansar de usá-las.

Pois é, entre essas peças, surgiu o redingote, que era um tipo de manteau abotoado de alto a baixo, que servia para usar em aniversários e outras festas. Dava uma elegância muito especial a sua portadora. Procurei no Google, que o explicou: espécie de casaco feminino, comprido, ajustado à cintura, traspassado e duplamente abotoado na frente.

E como tudo na vida se encadeia, ao lembrá-lo, recordo a fineza da Hilda e o seu jeito de facilitar a escolha, quando a freguesa hesitava.  A loja parecia um salão de festas. Os provadores sempre ocupados pelas mesmas pessoas – freguesas assíduas –, que se cumprimentavam e trocavam favores, cedendo seu lugar ou trocando palpites sobre o melhor produto.

Lembro a Étie e seu pacotão de compras para vestir suas meninas. A Maria Augusta, que entendia de moda e me dava os conselhos devidos. A Maria, a Magda, a Ione e a Lourdes… Quantas pessoas queridas que aproveitavam aqueles momentos para abraços, beijos e votos de bem-estar.

Mário Quintana, idoso, nos entendia. Em nossas conversas, quantos parênteses repletos de “farelos” que, juntados um a um, vão abrindo portas e janelas de um passado que teima em nos acompanhar.