Paradoxal

 Os genros adquirem intimidades com as sogras, os casais criam coragem para reclamar da relação, os filhos enfrentam os próprios pais e os casais se estressam. O que era para ser uma reunião de família, abençoada e pacífica, se transforma em início de desavenças e discórdias futuras

A maioria dos gaúchos, ou apenas os sulistas, de origem e tradição campesina, conserva o hábito do churrasco familiar de final de semana, mesmo estando longe da querência, em plagas nacionais ou estrangeiras. Este é também um costume dos platinos, uruguaios e argentinos, onde o assado na “parrilla” e as especialidades de miúdos de gado e ovelha representam um charme rotineiro nos encontros entre parentes e amigos.

Soube, pela boca de um amigo, que o poeta Fabrício Carpinejar, expoente da comunicação do nosso Rio Grande, participou há pouco tempo (2023) de um programa noturno da Rádio Gaúcha, onde discorreu acerca das inconveniências desses encontros “saudáveis”, tão arraigados em nossa cultura.

Comentou ele que esses churrascos desagregam as famílias. Depois de algumas caipirinhas e cervejas bem geladas, as línguas se soltam. Os genros adquirem intimidades com as sogras, os casais criam coragem para reclamar da relação, os filhos enfrentam os próprios pais e os casais se estressam. O que era para ser uma reunião de família, abençoada e pacífica, se transforma em início de desavenças e discórdias futuras.

Há, também, os desconfortos dos exageros glutões. É muita maionese, salsichão com excesso de gordura de porco, pão com alho, carne gorda em abundância e dificuldades para a digestão de tanta comida fora da rotina do dia a dia.

Fiquei pensando no assunto e me recordei de muitos desses furdunços já acontecidos em reuniões familiares similares das quais participei. Desavenças entre gente de casa, parentes, amigos e afins que acabam deixando marcas difíceis de apagar e que geram desconfianças de todo tipo. Tá, mas isso pode acontecer em diversas situações, nem precisa ser em dia de churrasco.

Quanto a mim, já decidi: com a meia dúzia de parentes que hoje tenho e a idade que já alcancei, vou continuar fazendo churrasco nos finais de semana. Se rolar algum “bochincho”, apartamos e seguimos com o “baile” enquanto existir uma brasa acesa na churrasqueira e uma cerveja gelada para dividir com a parentalha e os amigos. E segue o baile, porque a vida é muito curta para que eu me guie pelo negativismo dos preconceitos mundanos.