Pensando longe

“Meu pai não aceitou aquela patinada escolar e resolveu ir falar pessoalmente com a diretora no primeiro dia útil depois do feriado da Páscoa. De bota e bombacha, adentramos ao prédio do Dinarte Ribeiro, sacando o sombrero, em atitude de respeito”

Noutro dia, recentemente passado, fui ao Colégio Estadual para tratar de assunto particular. No pátio externo da frente da escola, onde, na década de 1960, inúmeras vezes entrei em filas para o início das aulas ou para cantar algum hino em datas especiais, refresquei a memória, assim como se um filme de saudosismo invadisse  minha alma. Caminhei devagar, a passos levitantes, reparando nas mudanças que o tempo sempre acarreta, até mesmo pela transfiguração das pessoas, que também já são outras.

Reparei, então, à direita de quem chega, em um cidadão de bombachas largas, de chapéu na cabeça com um barbicacho enfeitado por pequenas peças metálicas da cor prateada, cinturão de guaiaca, acomodado na pequena mureta que limitava um canteiro florido. Me parece que fumava um toco de palheiro e admirava a imponência daquele antigo prédio, templo de sabedoria.

Quando eu tinha sete para oito anos de idade e morava lá fora, naquele tempo em que muita gente habitava o interior do município e não havia sequer aposentadoria rural, fui alfabetizado por uma “professora” particular que ministrava suas classes utilizando a mesa do cilindro de sovar pão, em cadernos costurados de papel pardo de embrulho.

Depois fui para a escola da Oracila Valmarath, para cursar o terceiro ano primário em sala única, com cerca de 20 alunos do primeiro, do segundo e do terceiro livro. Concluído este ano, vim para o Dinarte Ribeiro e, fruto de uma avaliação inicial, voltei para cursar aquele mesmo terceiro ano que já havia frequentado lá no Durasnal.

Quando fui em casa na Semana Santa, meu pai perguntou como eu estava indo com o quarto ano, ao que respondi que estava repetindo o terceiro, por decisão da professora. Meu pai não aceitou aquela patinada escolar e resolveu ir falar pessoalmente com a diretora no primeiro dia útil depois do feriado da Páscoa. De bota e bombacha, adentramos ao prédio do Dinarte Ribeiro, sacando o sombrero, em atitude de respeito. Convenceu a ela, com seu arrazoado simplório, mas verdadeiro, de que eu poderia cursar o quarto ano, sob sua responsabilidade e, ao sairmos na calçada, prometeu que, se eu passasse de ano, ele me daria a minha primeira fatiota. No final do ano de 1960, quando completei 10 anos de idade, ganhei um terno de lã verde oliva, costurada pelo Floroaldo.

Eu visualizei meu pai naquele senhor de bombacha, na frente do Estadual, na semana passada. De aparência rude, vestido a maneira de um homem do campo, talvez com pouca cultura de livros, respeitoso diante do educandário onde um filho ou neto seu entrara para aprender. Não imagino o porquê de ali se encontrar, mas não foi difícil constatar que respeitava o local e as pessoas que por ali laboravam, enquanto aguardava por alguém que andava no seu interior.

Por isso é que, ainda hoje, reverencio essas pessoas simples na aparência, mas que já descobriram que somente através da educação é que se constroem currículos, e que a evolução do ser humano de origem mais humilde ou despossuída financeiramente depende do ensino público para habilitar qualquer adolescente para a vida universitária ou algo similar.

Quando conclui o então Curso Científico, ingressei na Academia Militar das Agulhas Negras, integrando a última turma de civis oriundos de escolas públicas com direito a matrícula direta naquele exemplar estabelecimento de formação militar. Se não fosse a intuição e a coragem do meu falecido pai, não teria logrado êxito no propósito que abracei.

Na verdade, descobri, naquele senhor, a figura do meu pai, na sua humildade respeitável.