Pilungo, Apolinário Porto Alegre e a enchente de 1848

Por Marcelo Mayora Alves*

Em artigo especial, professor caçapavano Marcelo Mayora Alves relembra clássico da literatura gaúcha e faz analogia com atual situação do Estado do Rio Grande do Sul

Crédito: Arquivo pessoal

Quando o Guaíba deixou de ser apenas o nosso bonito e degradado amigo que encanta o caminho para escola e deseja-nos na língua das águas bom dia; quando “o rio como um rei subiu, reclamando terras, cobriu, de água e frio, e a cidade viu, tudo se afogando, carros atolando, gente sem saída, sem casa, comida, esperando ele voltar de onde saiu”, como na canção de Cláudio Levitan sobre a enchente de 1941; nos dias em que o Guaíba tornou-se o protagonista do nosso cotidiano, medido e temido, a filha teve sensibilidade suficiente para lembrar do clássico de Sérgio Caparelli, Os meninos da Rua da Praia (1979), e pedir que retornássemos à obra naquele mágico momento em que um livro amorosamente lido pelos pais ou cuidadores embala o sono e os sonhos de uma criança. Certamente não foi à toa. O livro conta a história de Socó, Tiziu e Tonho, três meninos pobres que vendem jornais no Centro de Porto Alegre e vivem uma aventura com uma tartaruguinha nascida no Guaíba, para onde volta para sobreviver, por força e generosidade dos guris: “a Tartaruguinha nadava toda garbosa no rio e foi se afastando na direção de sua ilha. Ela sentia o frescor das águas e ouvia o canto do rio indicando que a ilha a esperava. E foi embora. Tonho, Tiziu e Socó se deram as mãos e começaram a dançar no meio do rio, rindo e chorando ao mesmo tempo”.

Lendo em voz alta sob a luz do abajur as peripécias e a luta pela sobrevivência dos meninos da rua da praia, lembrei-me de outro personagem infantil, imaginado por Apolinário Porto Alegre um século antes, no conto “Pilungo”, que compõe o livro “Paisagens” (1875). Este também se relaciona fortemente com o Guaíba – dessa vez em meio a uma enchente – e como os meninos da rua da praia está inscrito na “tradição dos oprimidos”. Mas eu lera o exemplar da obra disponível na biblioteca Érico Veríssimo, na Casa de Cultura Mário Quintana, que estava embaixo d’água e ainda no dia em que escrevo este texto está fechada. No entanto, precisava (muito) reler o conto. Na internet não encontrei. Assim que deu fui aos sebos do Centro e no mesmo dia em que vi com os próprios olhos o Mercado Público alagado consegui um exemplar no Beco dos Livros (obrigado, Peter Dullius!).

O conto narra a história de Zeca, “uma infeliz criança, quase sempre maltrapilha e descalça”, filho “de um pescador da praia do Riacho, desses pobres homens que tiram os únicos recursos para a subsistência do anzol, da rede, da tarrafa e do espinhel”. Espécie de Pedro Bala da água doce, “tez morena emoldurada nos caracóis de cabelos negros, olhar vivo e trêfego”, não “tivera por berço o edredom macio e enervador que faz do menino opulento uma inutilidade aos doze anos”. Ao contrário, “seu berço fora a canoa paterna que tinha por dossel a abóboda do céu e por chão a onda do Guaíba”. Na sua vida de guri solto desenvolveu habilidades tanto na água quanto na terra. Se no rio “em um pequeno barco ninguém o excedia” e “no remanso dos furados ia sorrateiramente por baixo dos aguapés colher às mãos a gentil irerê a banhar-se”, na terra, “no cavalo através do vargedo, dava pancas”. Por estas razões ganhou fama e o apelido de Pilungo, expressão que significa “cavalo ruim, sem préstimo”, mas que ele aceitara como “título de glória, como uma condecoração honrosa”.

Conta Apolinário Porto Alegre que durante a guerra civil farroupilha também “os meninos da cidade de Porto Alegre” formaram duas facções, reproduzindo a luta dos adultos. Eram os Tinteiros e os Bagadus: “desde a ponta das Pedras até a rua Clara, estavam os últimos, desde a rua Clara em diante existiam os primeiros”. Os nomes das gangues “exprimiam caracteristicamente os indivíduos de bairros tão diferentes pelos costumes e civilização de seus habitantes”. Os Tinteiros eram os meninos ricos, que sabiam ler e escrever, a “miuçalha que, favoneada pela fortuna, podia ter a tintura literária, segundo seus gostos”. Os Bagadus eram os meninos pobres, “o desvalido da sorte, cujo destino se assemelhava ao peixe, donde lhe proviera o nome”. Apolinário Porto Alegre não desejou esconder sua simpatia pelo último grupo, que toma “um lugar no banquete da vida por seus próprios esforços na luta contra a natureza bravia e indômita e contra o parasitismo dos grandes e poderosos que tendem sempre a absorver os modestos, obscuros, e no entanto incansáveis obreiros, imenso corpo de colaboradores anônimos, em cujos braços repousa a humanidade”. Zeca era um dos chefes dos Bagadus e nesse posto protagonizou refregas contra os Tinteiros, pelas ruas Principal e Bela, dentro do rio, na altura da “velha ponte de madeira que então existia na confluência do arroio Dilúvio com o Guaíba”; na Praça da Matriz, na rua do Cemitério e na rua do Arvoredo.

Romântico pelo tratamento exterior, Apolinário se aproxima dos naturalistas pela substância documental”, afirma Guilhermino César, na História da Literatura do Rio Grande do Sul (1737 – 1902). A história de Pilungo, nobre herói popular, é uma típica narrativa de amor proibido com Chiquinha, “uma linda moça de cabelos negros, (…) de cútis morena e olhar chamejante”. Moradora da região das ilhas, Chiquinha residia numa “modesta cabana sobre estacas de oito palmos de altura, prevenção tomada por causa das enchentes.” É filha de Gaudério, um pai violento e beberrão, que quer casá-la por interesse com Toríbio, um “gringo” usurário. O momento decisivo do conto ocorre no ano de 1848, durante uma grande enchente, documentada por Apolinário Porto Alegre.

Pilungo fica sabendo que Chiquinha foi prometida em casamento por Gaudério para Toríbio e decide rumar para a ilha, remando febrilmente em sua canoa, “o sol quase posto, uma nuvem negra no céu”. Na chegada de Pilungo, o casal – cujo drama nos remete ao romance de Pedro e Rosinha (“a mais bonitinha de todas mocinhas lá do arraial”), da composição de Dorival Caymmi – abraça-se na praia defronte ao rio e faz juras de amor. São flagrados por Gaudério e Toríbio. O primeiro avança de faca em punho, mas é desarmado pelo valente Pilungo, enquanto o segundo foge. Zeca, por seu turno, sobe na canoa e vai embora, prometendo à Chiquinha voltar logo.

Então começa a chuva e a enchente:

Choveu durante cinco dias sem interrupção.

O largo do Guaíba tornou-se um mar. O Gravataí, Caí, Itapuí e Jacuí e seus numerosos afluentes traziam o copioso raudal em frente a Porto Alegre, onde espraiava-se com violência.

O arquipélago fronteiro ia sendo rapidamente invadido pela terrível enchente.

Ao longe ouvia-se o surdo rolar dos numerosos rios que vinham como uma tropa de baguais em desfilada.

O vargedo dos gravatais num perímetro de cinco léguas não apresentava mais uma folha ou pendão.

O litoral da donosa capital cedia, em cada minuto que passava, um palmo de terreno à onda que subia ruidosa e devastadora.

Apolinário continua a descrição:

Isto era por uma face. Pela outra o Dilúvio e os arroios da Cavalhada e do Xavier, seus tributários, recebendo grosso cabedal das vertentes dos morros do Cristal, Belém e Santana, saíam com ímpeto dos álveos e esparramavam-se por larga extensão.

A cidade estava pois ilhada.

A superfície do Guaíba ostentava uma cena esplêndida, Miríadas de aguapés, fragmentos de ilhas, árvores colossais arrancadas às matas virgens, homens em jangadas e canoas, bois, cavalos, capivaras, ariranhas, cobras de várias espécies, jacarés, e outros animais, tudo isso promiscuamente ou flutuando à mercê das águas ou lutando com energia contra os turbilhoes da enchente que procurava arrastá-los em seus vórtices vertiginosos.

Era um quadro sublime na grandeza e majestade!

Pilungo estava “habituado com aqueles contratempos”, tinha “na face do céu um barômetro seguro” e sabia que se trava da “inundação de São Miguel”. Resolvera, então, proteger-se num sangão que conhecia, e com as habilidades de ribeirinho e de herói romântico, “com o tino peculiar aos homens em contato com a natureza”, armou uma cabana, fez fogo, improvisou um anzol, pescou “carás, micholes, pintados e um muçum”, “assou alguns e comeu com verdadeira voracidade”.

Enquanto isso “a inundação engrossava espantosamente”. No quinto dia de subida do rio, Toríbio convenceu Gaudério que o melhor era retirar-se para Porto Alegre, mas aí já era tarde. Quando já estavam abrigados no teto da choupana, Pilungo apareceu para salvá-los. Primeiro levou Chiquinha, com a promessa de retornar para salvar o pai e a mãe da menina. Apolinário Porto Alegre imagina (descreve?) cenas épicas, o casal e um cavalo – como o famoso Caramelo – refugiado numa ilha formada em meio à aluvião: “que espetáculo há mais magnifico do que uma ilha resvalando ao grado da correnteza, coroada de corticeiras em flor, debruada de ingás, com dois amantes sentados no tapete de capim e trapoerabas, e um cavalo contemplando-os com meigo olhar?”.

A ilha flutuante serviu de embarcação e sobre a travessia escreve Apolinário que “o plaino do Guaíba parecia um prado vicejante, tantos eram os aguapés. Por toda a parte o estrago escrito: nas armações das choças, nas balsas, nos barcos sem dono, nos corpos de animais mortos e em mil outros objetos”. No caminho a Porto Alegre, passaram ainda pelo “cadáver de um homem seminu, sobre o qual um carancho pousado satisfazia a gula carniceira”, bem como por uma onça “agarrada a um galho”. Enfim, a “veemência das ondas os impeliu à Ponta das Pedras”.

Zeca mal chegou a Ponta das Pedras – praticamente o mesmo local em que foi montada a operação de resgate de pessoas e animais da região das ilhas nesta enchente de 2024, ao lado da Usina do Gasômetro –, “tomou um pedaço de charque cru e meteu-se num bote com outros companheiros” para salvar os pais de sua noiva, que por sua vez foi “entregue a uma família que encontrou no ponto de desembarque”. Gaudério, contudo, não resistiu e morreu afogado. A mãe “conseguira galgar o teto, e daí, onde tiritava de frio e sentia os horrores da fome, tirou-a o moço. Às oitos horas da noite estavam de volta, tendo de passagem recolhido outros infelizes em análogas circunstâncias”.

Ao chegarem não puderam ir para a casa da Rua do Riacho (atual Washington Luis), que também estava inundada, como aconteceu novamente nesta enchente de 2024. Refugiados na casa de amigos, na Rua da Varzinha (atual Demétrio Ribeiro), “as duas famílias reunidas nesta noite após tão súbitas peripécias, se gozaram da alegria que sucede a terríveis acontecimentos, também tiveram que chorar a morte de Pedro” (Gaudério). Quem sabe numa roda de chimarrão, como novamente fizeram outras famílias que na beira do Guaíba continuaram a viver e que aqui estavam na grande enchente de 2024?

No dia em que concluo este escrito está em curso a reintegração de posse da ocupação Desalojados da Enchente, em prédio situado na Rua do Arvoredo, isto é, na Rua Fernando Machado, muito perto da casa da recém citada da Rua da Varzinha, onde as famílias reuniram-se após a enchente de 1848, narrada por Apolinário. Num dia frio do início de junho, o juiz da Oitava Vara Cível de Porto Alegre ordenou a desocupação imediata do imóvel, para que o prédio siga vazio, como está há doze anos. Pilungo deve estar por ali, com os seus, resistindo.

*Marcelo Mayora Alves é natural de Caçapava, Professor da Universidade Federal do Pampa e Doutor em Direito (UFSC).