Pobre velhinho, não tem ninguém…

A uma primeira vista, assim de sopetão, de revesgueio ou relancina, poderia ser uma definição pejorativa. De pena, desprezo ou lástima pela deterioração da sua condição humana já decrépita. Mas só parece. É puro embuste do “safado”, se escondendo como vítima de uma situação por ele mesmo criada e alimentada. A do “pobre velhinho” indefeso e precisado de proteção e carinho. Carinho das mulheres, dos de casa, dos netos, bem sabido, dos quais ele próprio não prescinde.

Hay boas e sempre crescentes vantagens em ser um longevo observador do mundo e das gentes que por ele circulam, porque cada “loco” desses que atravessa nossos caminhos tem lá suas esquisitices. “Cada louco com suas manias”, diz um ditado antigo e muito conhecido. Um adágio popular e que é muito fácil de identificar nas redes sociais onde, aliás, esse proceder fica mais evidente.

Cada cristão da internet, independentemente de escrever “mau ou mal” para tentar dizer a mesma coisa, se expressa livremente e destila fel, xinga e “puteia”, criticando o mundo inteiro que nem sequer lhe dá pelota. Cada ignorante se torna intelectual nas redes sociais da vida, opinando, dando palpites e confirmando a sua marca diante das mazelas do mundo. Principalmente, buscando solução para os seus próprios males ou os que ele mesmo acha que tem.

Ninguém, ou pouca gente, dispõe de tempo hoje em dia para gastar seu precioso cotidiano com preocupações inócuas com quem já deu o que tinha que dar. No interior, os idosos, mesmo decrépitos, mantêm um pouco do seu status de Seu Fulano, Seu Beltrano, pelo fato de que os anciãos da campanha permanecem com conhecimentos e influências sobre os de menos idade, que estão envolvidos com outros misteres mais tecnológicos  e modernosos. Se não fossem os rodeios, poucos ainda saberiam laçar a campo fora. Já existem raros alambradores, esquiladores, campeiros de roda de casa, caseiros, etc. ligados à lida de fora. Assim, os mais idosos permanecem orientando, ensinado e transmitindo experiência e sabedoria campeira a uns poucos que ainda se interessam e gostam de viver por lá.

Na cidade, em meio à barafunda do dia a dia dos que precisam trabalhar, estudar e circular, os idosos, muitas vezes, são estorvos para quem vive na correria. Cabe aos idosos aposentados observar mais, conversar mais, ler mais, aprender a lidar com os celulares, viajar, nem que seja em excursões do gênero hoje tão comuns, etc., enfim, arrumar o que fazer e, assim, descobrir um mundo de coisas novas que eles não tiveram tempo de pensar enquanto laboravam e buscavam ganhar dinheiro durante a vida de novo.

Como diria uma canção antiga: “quando eu era moço novo, fazia de tudo um pouco, dançava em baile de rancho, fincava o facão no toco; hoje que eu já fiquei velho, acho que o mundo anda oco; faço festa e meto baile, muitos me chamam de louco…”.

Eu tenho um amigo de Santa Catarina que sempre dizia o seguinte:

– Peço a vocês, meus amigos, que, se um dia me pegarem tentando ser candidato a algum cargo político ou assistindo ao Big Brother da Globo, me prendam, me engessem numa camisa de força e me internem num sanatório, porque, nesse caso, eu estarei fora da razão. Fiquei louco ou caduco, e estarei ameaçando a estabilidade da minha família. Me protejam, por favor, das minhas próprias loucuras, não me deixem fazer essas bobagens descabidas que geram tantos falatórios.

Não é fácil, nem “extremamente fácil” viver depois da aposentadoria, sem perder a dignidade. Parece que as pessoas não te escutam e nem te dão confiança, parando para ouvir tuas experiências já vividas. Ninguém está interessado nos aprendizados que possam vir dos mais velhos. Não há tempo para perder com quem já saiu de moda. Se o infeliz for um viúvo, a coisa piora ainda mais, pois um parceiro antigo da vida toda se presta para escutar e/ou repartir mazelas. Existe cumplicidade.

Por isso tudo que lhes enumerei, decidi transformar-me num velhinho rebelde e continuar tomando o meu mate bem na frente da minha casa só pra me “amostrá” e dizer que ainda vivo, a saber:

 

Vou tomar o meu mate da tarde, topetudo

Sentado bem na frente do meu rancho

Pra que os vizinhos que da vida dos outros sabem tudo

Saibam também do meu destino de carancho

Da minha sina andarenga de gaiteiro

E da minha vida, do que faço e desmancho