“Atuo, há pouco mais de sete meses, em uma escola de um dos bairros mais pobres da cidade, onde tenho 13 turmas, de 3º a 9º ano do Ensino Fundamental. É com base na experiência que venho tendo ali e em alguns acontecimentos que chegaram ao meu conhecimento que escrevo”
Muitos lerão este texto e pensarão “ela está respondendo ao Coronel”. De fato, o escrevo poucos minutos após ler sua crônica “Bah, tu viu isso? Nº 3”, publicada aqui na Gazeta, na segunda-feira (27). Entretanto, não tenho esta intenção; ele apenas me fez refletir sobre alguns pontos de minha formação e alguns fatos de minha experiência profissional, e me inspirou a escrever hoje, após tanto tempo sem publicar uma coluna por aqui.
Mas antes de dizer o que vim dizer, preciso esclarecer porque estou apta a fazê-lo. Em 18 de março deste ano, assumi um contrato com a Prefeitura de Pelotas, para dar aulas de Língua Espanhola. Atuo, há pouco mais de sete meses, em uma escola de um dos bairros mais pobres da cidade, onde tenho 13 turmas, de 3º a 9º ano do Ensino Fundamental. É com base na experiência que venho tendo ali e em alguns acontecimentos que chegaram ao meu conhecimento que escrevo.
Em sua crônica, meu colega colunista Zauri Tiaraju de Castro afirmou que “os professores perderam a autoridade perante seus alunos. Professor não pode ser ‘amiguinho’ de aluno, certos modernismos são inadmissíveis e precisam ser evitados. Também não é preciso voltar à palmatória, mas respeito sempre é bom para qualificar o diálogo escolar”. E ele tem razão, até certo ponto. Não é preciso voltar à palmatória, mas respeito sempre é bom.
Porém, não foram os professores que perderam a autoridade. Esta lhes é tirada de diferentes formas, por pais, equipes diretivas, Secretarias de Educação, etc., que são coniventes com certas atitudes e comportamentos dos estudantes. Não podemos confundir ter autoridade com ser autoritário. Eu, muito provavelmente, seria colocada no grupo “amiguinho”, mas tenho total autoridade em sala de aula, e isso está diretamente relacionado à forma como trato meus alunos, que são extremamente respeitosos comigo, diga-se de passagem.
O pesquisador estadunidense Stephen Krashen propôs a teoria do filtro afetivo, segundo a qual, quanto melhor é o relacionamento do professor com seus alunos, mais eles conseguirão aprender o conteúdo ministrado, visto que este não será filtrado por nenhum fator emocional que comprometa o aprendizado. Darei um exemplo pessoal, de minha época de estudante: há uma matéria que, apesar de minha aptidão para outras “do mesmo grupo”, nunca consegui aprender, pois, na maioria das aulas (na minha cabeça de criança, era em todas, mas não podemos confiar na precisão das memórias traumáticas), a professora tinha uma “reação destemperada”, digamos assim, com alguns colegas meus. Vejam bem: nunca foi comigo, mas a atitude dela com meus colegas me afetava; então, imaginem como se sente a vítima de tal reação.
É com base na teoria de Krashen, que estudei durante a graduação, e na minha experiência da época de escola, dentre outras coisas, que construo minha postura de educadora hoje. E muito provavelmente ela se encaixe no que o Zauri considera modernismos inadmissíveis e que devem ser evitados. Acredito que a forma como ajo faça com que me considerem amiga de meus alunos. Vejam bem: como eu disse no início, a escola em que trabalho fica em um dos bairros mais pobres de Pelotas, e lá, os alunos são carentes em muitos aspectos, seja financeiro, afetivo, intelectual, dentre outros. Para dar aulas lá, precisei entender as particularidades de cada turma e, dentro destas, de cada aluno. Para os mais velhos, é importante seguir as regras das atividades; para os mais novos, conseguir concluí-las. Para todos eles, é importante serem ouvidos.
Só quem já pisou em uma sala de aula de escola pública sabe como é esta realidade. E como aluna que fui de escola particular, afirmo, para os que por ventura ainda não saibam: há um abismo entre elas, mas também semelhanças. Muitas vezes, o professor assume a função de educador, de pai, de amigo, de conselheiro, de mediador, tudo isso ao mesmo tempo. E não podemos nos eximir de cumprir esses papéis, pois são oportunidades que temos de ensinar algo às crianças, e não podemos perdê-las. Afinal, nosso trabalho não é apenas repassar conteúdos das disciplinas que ministramos, mas ENSINAR.
Para finalizar este texto, que já está demasiado longo, quero dizer que entendo que o Zauri relaciona a falta de respeito dos alunos para com os professores à forma moderna das aulas. Mas eu já a conecto a outra educação, a que vem de casa. Certamente, meu colega colunista, como muitos de vocês que me leem agora, foram ensinados por seus pais que, na escola, o professor é uma autoridade e deve ser respeitado. Certamente, seus pais respeitavam seus professores. Mas em um contexto onde, hoje, nem os pais respeitam os professores – como no exemplo citado por Zauri em sua crônica, do pai que agrediu o professor que pediu que sua filha não usasse o celular em sala de aula (lembrando: o uso de celular nas escolas está proibido por lei) –, como irão os filhos respeitar? E esse me parece ser um ciclo muito difícil de ser quebrado. Não sei em que momento ele começou, mas vejo que esses pais também não foram ensinados a respeitar, e esse comportamento vem sendo passado de geração em geração.