Reminiscências

“Naquela época, eu possuía uma linha telefônica adquirida quando morava em Santa Maria, que deixei alugada e me rendia um salário mínimo mensal. Muito ajudava no orçamento mais apertado daqueles tempos passados”

Na década de 1980, vivi três anos na Vila Militar de Deodoro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma população de cerca de 25 mil almas ligadas ao Exército tornou-se a base eleitoral da família Bolsonaro, no início da sua trajetória, quando foi eleito vereador pela primeira vez, após ser punido por reivindicar melhores salários enquanto aluno do Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais, no posto de capitão.

Naquela época, costumávamos ir aos supermercados da Barra da Tijuca fazer as compras do mês. Era programação para um dia inteiro e, além de melhores preços, se aliava a viagem de serviço para aquele subúrbio carioca já glamoroso a uma oportunidade de passeio e lazer.

Lembro que alguns itens desfrutavam de preferência especial: um temperinho japonês chamado de Ajinomoto, recém-lançado no mercado nacional, servia como alternativa ao sal de cozinha, para uso das pessoas com pressão alta. Eu descobri a minha hereditariedade com 36 anos de idade, depois de alguns dias com uma dorzinha na nuca, incomodativa. Havia uns vinhos frisantes alemães, bem baratos, que costumávamos comprar e achávamos uma maravilha.

Nesse tempo, também lançaram o adoçante líquido em rede nacional, depois de uma celeuma impressionante acerca da sua utilidade e dos riscos que acarretaria para a saúde da população.

Naquela época, eu possuía uma linha telefônica adquirida quando morava em Santa Maria, que deixei alugada e me rendia um salário mínimo mensal. Muito ajudava no orçamento mais apertado daqueles tempos passados.

Lembro que o uso da propaganda nas camisas dos jogadores de futebol também foi um tema que deu muito o quê falar e ocupou grande espaço na mídia até sua implementação.

Foi nessa época, também, que o candidato a presidente do Brasil, Fernando Collor, declarou que os nossos automóveis mais se pareciam a umas carroças, pela falta de conforto e tecnologia. Depois, foi por causa de uma perua Fiat Elba que o polêmico presidente foi deposto, sofrendo impeachment no Congresso Nacional. Aliás, foi somente agora que este cidadão teve sua prisão decretada, como Senador da República, acusado de um desviozinho de R$ 20 milhões da Petrobrás.

Só para relembrar: foi somente em 23 de junho de 1996 que mataram o famoso PC Farias, na praia de Guaxuma, em Maceió, Alagoas. Era tesoureiro e homem de confiança do ex-presidente, chefe do seu caixa dois. (Somente por curiosidade, relembro: Fernando Collor é neto de Lindolfo Leopoldo Boeckel Collor, gaúcho de São Leopoldo, deputado estadual, deputado federal e ministro do Trabalho do primeiro governo de Getúlio Vargas, em 1930, e filho do Senador Arnon de Melo, por Alagoas, que matou outro parlamentar dentro do Congresso Nacional, em tiroteio ocorrido em 1963).

Chamou a atenção de todos que, na solenidade da formatura do curso de Estado Maior (ECEME), em que fui o orador da turma, em 1990, o então presidente comandou e cantou bem alto toda a Canção do Exército. Teria se prestado a decorar a longa letra somente para aquela ocasião?

De fato, já são muitas reminiscências, boas e nem tão boas assim…