“Me enganei mais uma vez, talvez esquecendo que moramos em Caçapava do Sul, onde costuma fazer inverno até no forte do verão”
Bah, chegou o inverno, tchê, e de novo… Todo ano ele costuma se apresentar antes da hora. De acordo com a previsão do Calendário Gregoriano, aquele do Papa Gregório, que adotamos, sua apresentação deveria se realizar às 23 horas e 42 minutos do dia 20 de junho deste 2026, mas, como quase sempre acontece nestas pradarias sulinas, ele vem antes.
E não foi surpresa pra ninguém, porque a MetSul Meteorologia já havia anunciado, para este sábado último passado, a chegada de um ciclone extratropical originado na Patagônia Argentina, com ventos de até 100 quilômetros por hora e temperaturas de sete graus, aqui na metade Sul do Rio Grande. Desta vez, as chuvas cairiam pelo Sul de Santa Catarina.
Cada vez que chega uma friagem, relembro os meus eternos planejamentos de passar o inverno no Ceará, no Nordeste Brasileiro, onde faz verão o ano inteiro, naquelas praias ensolaradas, de águas esverdeadas, emolduradas de coqueirais e jangadas coloridas. E aí me dou conta de que não tomei providência nenhuma, na inocente ilusão de que o nosso verão nunca acabaria e de que eu já estava acostumado e gostando dele.
Semana passada, ouvi dizer que uma vizinha aqui da rua havia comemorado o primeiro fogo de lareira do ano, e comentei que achava um exagero, já que o nosso frio ainda demoraria a se achegar por aqui. Me enganei mais uma vez, talvez esquecendo que moramos em Caçapava do Sul, onde costuma fazer inverno até no forte do verão.
Acontecem coisas costumeiras quando chega o frio: aquela fresta da janela que, no ano passado, tapei com um pano de flanela voltou a ventilar o quarto; ainda não completei o tapume dos cachorros que dormem na garagem e sempre espalham as cobertas que arrumamos pra eles; me dei conta de que estou com pouca lenha, pois a que sobrou do inverno passado, gastei fazendo churrasco no quiosque da piscina; quando acordei, foi uma briga para encontrar uma blusa térmica, que esqueci de por no sol para tirar o mofo, e as botas de lã estavam cobertas de bolor, guardadas no quartinho da bagunça…
Pelo menos o Grêmio ganhou do Coritiba, e o Gabriel Mec confirmou que vai ser mesmo um grande craque, que já faz uns três anos que anunciam na imprensa.
Mas temos também nossas compensações regionais: as bergamotas já estão quase maduras; a estufa das alfaces está com a folharada em pleno crescimento; as ruas ficarão mais vistosas, com seus casacos coloridos; palas e boinas sairão dos guarda roupas; as academias se transformarão em vitrines, com seus abrigos vistosos; e as mesas se enriquecerão com comidas mais gordurosas de massas, mocotós, vaca atolada e feijoadas… Ah, já ia me esquecendo dos vinhos gaúchos e argentinos e até daquela cachaça com butiá que eu havia me esquecido desde a primavera passada.
Coisa boa também que a vida segue, que as estações se intercalam, cada qual com suas belezas características, e que a vida se renova nessas particularidades nossas tão peculiares aqui do Sul.