“E os especialistas, hein? Nunca vi tanto meteorologista para dar entrevista televisiva, interpretar as ocorrências climáticas e prever o futuro catastrófico para a humanidade, que continua não dando nem pelota para as causas e efeitos das intempéries do mundo”
Não faz muitos anos, a Globo apresentou uma novela com este título. Praias maravilhosas, gente jovem descolada, mulheres lindíssimas exibindo corpos sarados, quase nus, num clima fantástico de glamour e vida enlouquecida. A telinha colorida ganhou muitos adeptos naquele horário. A trama, nem me lembro direito, mas era igual a todas as tramas da emissora do plim-plim: triângulos amorosos, traições em quantia e sacanagem para todos os gostos.
Era um tempo meio mágico para os jovens de então, decorávamos a trilha sonora do folhetim, produziram o bronzeador “sol-de-verão”, os biquínis enroladinhos, sugerindo que o legal era viver no glamour do litoral. Foi durante a exibição dessa novela que o ator Jardel Filho passou mal e veio a falecer, os fazendo concluírem a trama antes do tempo planejado.
Agora, janeiro/fevereiro de 2025, tomou corpo um baita sol meridional de rachar o coco de quem não gosta de usar chapéu, porque está fora de moda. Alguns veteranos ainda se atrevem, por causa dos melanomas que acometem aos de pele mais clara. Até as sombrinhas caíram no desuso, e um corpo dourado, bronzeado de sol, é que impressiona a galera no verão.
Já foi muito comum as mulheres saírem na rua utilizando sobrinhas coloridas, que eram vendidas nas casas de comércio e armarinhos, protetoras das peles mais alvas, o que era o maior charme na ocasião. Tomar muito sol no forte do verão fazia mal à saúde, principalmente para as senhoras mais recatadas da freguesia.
A cada dia, os termômetros batem os seus próprios recordes do dia anterior, e o pessoal do agro se escabela em função dos prejuízos que se avizinham. Eu recordo muito bem, quando no ano passado de 2024, as chuvaradas trouxeram flagelos para os produtores de soja que colheram mais no tarde ou que tiveram suas plantações de terras mais baixas alagadas. E o velho ditado popular se repete mais uma vez: dia de muito, véspera de nada.
E os especialistas, hein? Nunca vi tanto meteorologista para dar entrevista televisiva, interpretar as ocorrências climáticas e prever o futuro catastrófico para a humanidade, que continua não dando nem pelota para as causas e efeitos das intempéries do mundo.
Esse calor demasiado (um gaúcho raiz diria “calor bagual”) sempre existiu, pelo menos desde que me conheço por gente. Me remete aos banhos de açude dos tempos das férias grandes; pescarias itinerantes, atirando linha nos poços e lagoões dos arroios lá de fora; e incursões pretensiosas pelos açudes dos campos vizinhos. Escasseavam as águas do poço furado na pedra, e a minha mãe precisava sair de “aranha”, puxada pelo seu cavalo Iedo Fiúza – zaino, idoso, lerdo e muito manso – para lavar roupa no arroio. Pelo menos vicejava capim novo e verdinho para aquele que tinha de esperar na soga até que a roupa lavada secasse, nos galhos dos pés de salso chorão das barrancas, para poder voltar pra casa, vencendo a rampa comprida do ladeirão depois do varzedo do fundo do campo. A mim, sobrava a oportunidade de pescar lambaris pelas redondezas da fonte, além de montar guarda para a tranquilidade da lavadeira saudosa.
Nestas épocas, o gado se mete pelos matos, procurando a fresca, e acaba guerreando com as mutucas incomodativas e as varejeiras inconvenientes, que depositam as suas larvas, que irão virar bicheiras.
Enfim, daqui a poucos meses será inverno de novo, na imutabilidade dos ciclos climáticos de todos os anos, e ainda nem instalei a torneira elétrica nova lá de casa, para facilitar a vida da cozinheira na friagem que está logo ali.