Tradicionalismo

Assisti ultimamente, pela mídia em geral, uma polêmica discussão acerca dos usos e figurinos dos gaúchos em eventos ditos tradicionalistas, e já que estamos na Semana Farroupilha, vou publicar a minha opinião sobre o tema

Para começo de conversa, esclareço: a bombacha larga dos gaúchos, a bombacha de campo, passou a ser usada no Rio Grande durante a Guerra do Paraguai, lá por 1860, adquirida por intermédio do General Urquiza, que era argentino, proveniente de uma sobra do Exército Turco quando do fim da Guerra da Crimeia.

Assisti ultimamente, pela mídia em geral, uma polêmica discussão acerca dos usos e figurinos dos gaúchos em eventos ditos tradicionalistas, e já que estamos na Semana Farroupilha, vou publicar a minha opinião sobre o tema.

Sempre tive minha opinião formada e firmada sobre este assunto, mas resolvi consultar o dicionário para ver se eu não estaria com um juízo equivocado sobre o tema de fato polêmico. Confirmei o que já sabia: que tradicional é tudo aquilo que se refere a usos e costumes preservados e cultuados por uma comunidade, tendo a ver com história e manutenção desses hábitos culturais.

No caso muito especial dos gaúchos, o “tradicionalismo” vem, principalmente, da nossa rica história agropastoril e dos feitos heroicos dos Farrapos, que ensanguentaram essas coxilhas com desprendimento hercúleo e coragem sobre-humana na defesa de uma crença de que aquele Rio Grande de 1835 poderia ser melhor e mais igualitário perante os outros rincões do grande Brasil.

E venceram, apesar de todos os erros em prolongar uma guerra regional travada contra forças muito superiores, em condições de penúrias e estoicismos levados ao extremo. Foi uma longa guerrilha de desgaste contra as forças do Império. Irmãos de sangue e de solo peleando uns contra os outros, em fraticidas batalhas e bárbaros embates de lanças, espadas e garruchas, de mortes e massacres desnecessários.

Depois, Paixão Cortes e seus jovens companheiros, em 1947, tiveram a grandiosa ideia de perpetuar aquelas conquistas, criando o que hoje é o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), que segue plantando CTGs pelo Brasil afora, e até em outras partes do mundo.

Se foi com o intuito de preservar a nossa história pelos tempos e pelas gerações, não somos nós e nem o MTG que irá modificar as suas raízes originais. Nem a opinião do Baitaca e de alguns outros, parecendo não querer contrariar o seu público, dizendo que as coisas evoluem e os costumes também devem seguir a reboque do que vem do modismo e até de outras culturas platinas e de que até os sertanejos podem sim fazer os shows dos rodeios.

Sou de opinião de que a bombachinha estreita, vinda da Argentina, aqui chamada de campeira, pode ser usada para a lida diária, no campo ou na lavoura, como indumentária do dia a dia, porque é mais barata e mais prática para o desempenho do campeiro, mas nos eventos oficiais dos CTGs, elas não devem fazer parte. Sou contra o uso dessa simplificação do traje modernista quando se trata de perpetuar a história, já que o tradicionalismo gaúcho foi criado para isso.    Assim, também como as “cordas” de nylon, os lacinhos chumbados, trançados à máquina e os lencinhos coloridos. Não são peças da nossa tradição gaúcha.

Nos dias em que os patrões de CTG alugam seus galpões para angariar fundos para custear suas despesas institucionais e pagar o MTG; quando entra calça de brim, vestidos comuns, etc., podem participar até os gaúchos de bombachas estreitas, mas na Semana Farroupilha, nos seus bailes e desfiles, deveríamos reverenciar a velha bombacha dos gaúchos.

Alguém já viu uma prenda de saia acima do joelhos em bailes de CTG na Semana Farroupilha? Pois então, não cabe aos peões desfigurar esse costume do nosso tradicionalismo, tão rico de cultura e de identidade sulista.