Nada como passar necessidades para despertar no ser humano seu instinto de sobrevivência. Nesses momentos, cada um reage de uma forma. A utilizada por Lázaro, protagonista de Lazarilho de Tormes – romance espanhol de autoria anônima –, é fazer truques.

Tal como ele, a própria obra é uma sobrevivente. Como muitas outras, foi proibida de circular durante a Inquisição e poderia ter se perdido não fosse alguém esconder um exemplar em uma parede falsa de uma casa em Barcarrota (Espanha). Esse exemplar é de 1554 e foi encontrado durante uma reforma em 1992.

Mas por que essa proibição? Para mim, o motivo mais claro é a forma como os membros da igreja são retratados. Para entender melhor isso, é preciso conhecer a trama. Lázaro ficara órfão de pai ainda criança. Vendo-se sozinha e com um filho para criar, sua mãe, Antona Pérez, se muda da aldeia onde mora para Salamanca e passa a trabalhar de lavadeira e cozinheira. Logo ela começa um novo relacionamento e Lázaro ganha um irmãozinho.

Porém o que poderia ser o início de um feliz recomeço se torna mais um infortúnio: o namorado de Antona rouba seu patrão para ajudar no sustento da família e, ao ser descoberto, o casal é punido. Obrigada a afastar-se do local onde até então trabalhava, Antona passa a prestar serviços em uma estalagem. Algum tempo depois, lá se hospeda um cego que escolhe Lázaro para ser seu guia. Apesar de prometer cuidá-lo como a um filho, este homem trata o protagonista sempre da pior forma possível.

Após passar poucas e boas nas mãos do cego, Lázaro o deixa e passa a servir a um clérigo. A este, segue-se um escudeiro, um frade, um buleiro, um capelão e um oficial da justiça. O que todos eles têm em comum? Maltratam Lázaro de alguma forma e o subestimam devido à sua origem humilde. Mas na verdade, ele é muito inteligente e esperto, o que demonstra ao criar seus truques, que muito divertem os leitores, para vingar-se de seus maldosos amos. Se ele não agisse assim, não teria sobrevivido muito tempo. E no fim, a vida é assim mesmo… Temos que saber jogar o jogo.

 

Referência:

LAZARILHO de Tormes. 2ed. Tradução de Heloísa Costa Milton e Antonio R. Esteves. São Paulo: Editora 34, 2012. 224p.