U’ mamão

Uma mão pode lavar a outra, e as duas enxugam nossas lágrimas, porque os sorrisos que distribuímos não precisam das mãos para se espalhar, mas o pranto dolorido que vertemos no sofrimento precisa delas para sumir da face

Escrevi errado e por gosto, para brincar com as palavras, só para saber da reação dos leitores. Eu desejava escrever sobre as mãos, ou apenas “uma mão”, para quem tem uma boa mão na vida: tudo que ele planta nasce, cresce e produz bons frutos e sementes; as obras que constrói ficam bem feitas; as coisas que escreve, todo mundo gosta de ler, porque têm conteúdo; as feridas que ele cura, saram; e os abraços que reparte se multiplicam em mais afagos e carinhos de amizades permanentes.

Minha mãe dizia que eu não sabia plantar árvores, mas as mudas que eu colocava na terra pegavam porque eu tinha uma boa mão. Quando vejo todas as árvores que vicejam ao redor da minha casa, sinto a confirmação dos dizeres da minha querida progenitora nos seus derradeiros anos de existência aqui, junto comigo e com as minhas múltiplas plantações. São os testemunhos vivos dessas atividades manuais. Dizia que eu cativava muitas pessoas porque, ao lhes estender a mão para um cumprimento de atenção, lhes transmitia a confiança de uma mão firme e calorosa no seu contato amistoso, tudo adubado com largos sorrisos, bem sabido.

Meu pai dizia que vivia dos braços porque tudo que tinha, havia adquirido com os esforços dos seus músculos de homem pouco instruído, rude e trabalhador. Hoje, eu discordaria um tantinho dele, porque acho que foi com suas mãos de lavrador, de campeiro, de guasqueiro, de alambrador, com as quais ele tão bem exercia as suas tarefas simples e úteis para aquele tempo. De pouco valem nossos braços de gigantes se as nossas mãos não forem hábeis e fortes para a execução das tarefas a que nos propusemos.

Quando iniciei a tentar aprender a tocar gaita de botão, de oito baixos e de duas conversas, demorei quase meio ano para separar uma mão da outra. Enquanto a direita vai solando a melodia no bolino do teclado, a outra apenas ritmiza os compassos para completar a música como um todo. É quase o mesmo que escrever à máquina – no caso, no computador –, utilizando apenas dois dedos, um de cada mão. O escriba termina ficando treinado de tanta prática cotidiana. Então, as mãos são o prolongamento do cérebro através dos nervos que alcançam as pontas dos dedos.

E, nessa ótica, descobri também que as mãos estão ligadas ao coração, quando fazem carícias, quando acarinham gentes e bichos de estimação e quando escrevem poemas e canções de amor verdadeiro, que são mania dos que se dizem poetas de versos e trovas.

Sem nunca esquecer que uma mão também pode lavar a outra, e as duas lavam nossa cara e enxugam nossas lágrimas, porque os sorrisos que distribuímos não precisam das mãos para se espalhar, são nascidos no coração e fazem um grande bem para a humanidade, mas o pranto dolorido que vertemos no sofrimento precisa delas para sumir da face sem, contudo, desaparecer da alma ou do coração magoados pela vida.