No começo do ano que recém findou, da graça de 2022, escutei muita gente comentar que ele passaria voando, e logo justificavam tal assertiva explicando que seria o primeiro ano sem pandemia, que haveria eleições nacionais e que, depois, ao final, aconteceria a Copa do Mundo do Catar. Todos esses motivos e acontecimentos ajudariam a nos tirar do foco do labor diário, das preocupações cotidianas e nos dariam mais tempo pra pensar na vida. Nos divertiríamos com os programas políticos na TV e assistindo o futebol internacional das seleções, torcendo para o Brasil.

Pois vieram as festas represadas há dois anos, no primeiro semestre: dê-lhe bailes, rondas, rodeios, festas de capela e ajuntamentos nas praias lotadas, como uma ode à liberdade reconquistada. Vieram quase dois meses de política intensa, com o país e as pessoas polarizadas entre manter Bolsonaro ou reentronizar Lula, e, depois, em alterar o resultado das eleições sob alegações de podridão do sistema eleitoral e da prostituição das mal faladas urnas eletrônicas. E agora, já no final do calendário, a tão esperada Copa e a possibilidade da conquista do hexacampeonato nacional em homenagem ao Pelé, que se encontrava hospitalizado.

Nem tudo aconteceu como a gente (cada um de nós) esperava, mas o tempo deste ano passou rápido mesmo. Foi um ano atípico, segundo os padrões normais dos acontecimentos. Ficamos mais velhos, mais experientes e bem mais vividos, embora prossigam acontecendo coisas um tanto quanto fora do normal.

O presidente não se reelegeu, o ex-presidiário voltou pela força do povo, o governador do Rio Grande foi reeleito por primeira vez depois do Borges (ou não, esta não foi uma reeleição tradicional, porque ele renunciou antes do fim do mandato), o Brasil pipocou nas quartas-de-final da Copa, e a CBF decidiu contratar um técnico estrangeiro para reformar nossa seleção, em baixa no mundo do esporte bretão. Justo nós que somos pentacampeões mundiais, com muita honra e já sem ginga. Será que desaprendemos de ganhar?

Até já voltamos a usar a máscara, porque um terço da população resolveu não completar a dosagem da vacinação, e a Covid-19, disfarçada em novas variantes, sempre pronta para dar o bote, voltou a derrubar os mais desavisados.

Será que a maioria deles (não vacinados) votou no Bolsonaro só por birra e para debochar do indestrutível “viruzinho” chinês? Ou foi por medo da agulhada que as pessoas não se vacinaram? Ou por preguiça de tirar um tempinho para visitar o posto de saúde?

Aqui com meus botões, fico imaginando se é por ignorância ou irresponsabilidade que as pessoas não se vacinam e nem levam as crianças para receber as doses preconizadas. Ou estão se tratando precocemente com creolina, ou cloroquina, ou coisa que o valha? Alguns devem acreditar em benzedura e simpatia, como se fazia antigamente para afastar tempestade. Cruz, credo!

Já vem chegando o ano novo, de terno e gravata, no seu começo, elegante, cheiroso e conversador. Depois da Semana Santa, na entrada do inverno, e depois que os governos se instalarem de fato, ele já estará enxovalhado, encardido e mal cheiroso, tal e qual os outros passados.

Quer dizer, nada muda, ou pouco muda. Pode ser que, em 2023, acabe a Guerra da Ucrânia e morram menos crianças de fome pelo mundo afora. Somente isso já seria uma grande esperança para o ANO NOVO que já começou.

Ainda existe um cheiro de lentilha no ar. Quem sabe, no próximo réveillon, não façamos um tratado para só comer carne de javali, para ver se dá um fim no bicharedo – que está virando inço nas lavouras de milho e de soja –, poupando a leitoada doméstica do abate festivo.