Num domingo desses recém-passados, ventoso, mas ensolarado – menos mal –, acordei tarde, como é o costume permitido a um aposentado na terceira idade até mesmo nos dias normais. Lavei a cabeça, o cabelo, antes de tirar o pijama porque “los pelos” finos e lisos que herdei de minha mãe me incomodam com sua oleosidade.

Recolhi as toalhas de banho para estender no arame, debaixo do maracujazeiro desfolhado pelo inverno, e fui dar boia para os mais de trinta garnisés de todas as idades que nunca ficam satisfeitos: acho que têm papo de borracha. O milho quebrado que eles comem já custa R$ 65,00 o saco de 25 quilos, e dá apenas para uns vinte dias, quando muito. Pelo menos não compro ovos. Dei ração pros três cachorros e pra uma gata da casa, aquela que criou há pouco, e aí sim fui tomar o meu Nescafé com leite, banana, aveia e mel, como faço quase todos os dias: pão engorda.

Depois, lembrei que me faltava ler alguns pedaços do Correio do Povo de sábado, que é mais gordinho, e me sentei na frente da casa para ler e apreciar o movimento da Avenida Santos Dumont, que nessa época de entrada do verão, depois de um dia de chuva, já começa enfezado pela manhã, e vai até depois da entrada do sol, esperando pela segunda.

Fui ver o aterro da valeta da rua, quando passou o primeiro casalzinho de mãos dadas, caminhando em altos papos, bem faceiros. Não sei porque falamos casalzinho quando as pessoas são jovens, sem importar com o tamanho. Passaram alguns taxis pra lá e pra cá e um Fusca branco 1300, bonitaço e barulhento. Como tem Fusca e Chevette em Caçapava! Existe até um Clube do Chevette na saída para Lavras.

Justo quando terminava de ler a coluna do Juremir, chegou o Zé, que queria me mostrar um Corsinha que ele tinha pra vender e lhe disseram que eu queria comprar um. Não vou contar o desfecho do negócio para os leitores ficarem curiosos. Retornei para a minha leitura e passaram dois guris, adolescentes, vestidos com aqueles moletons que têm um capuz que esconde a cabeça. Com um sol daqueles que fazia, pensei: como é que caminham daquele jeito, parecendo agasalhados por causa do frio? Acredito que se equivocaram no traje quando saíram de casa, mais cedo.

Lá pelas onze horas, encostou no portão um cidadão que pilotava um carrinho de mão, vendendo salame e rapadura de coco e amendoim. Comprei uma tripa de salame por R$ 15,00. Como eu só tinha R$ 14,00 trocados na carteira e ele não tinha troco para R$ 50,00, fui lá dentro pegar um real no vidro das moedas que fica no armário da cozinha, ao lado do porta-chaves e abaixo do altar da Mãe Rainha e da Bíblia.

Quando já estava terminando de escrever este minidiário, reparei que o pé de dália da frente tinha oito flores abertas na cor lilás, que ficavam ainda mais bonitas com a iluminação do sol da manhã. Soube que essas flores são muito populares no México, onde existem em abundância.

Perto do meio-dia, passou uma mãe, sempre grudada no celular, arrastando um guri pela mão. Nem reparou quando ele pediu para olhar mais de perto os garnisézinhos que ciscavam no canteiro onde um pé de nectarina está tapado de frutinhas. Aí fui almoçar…