A professora e colunista da Gazeta, Anna Zoé da Silveira Cavalheiro, lança hoje (05), às 16h, na Casa de Cultura Juarez Teixeira (Rua General Osório, 730 – Centro), Vai passar, seu novo livro de crônicas. A obra tem 120 páginas e reúne 50 textos escritos durante e depois da pandemia da Covid-19, refletindo a vivência do período.

– Eu não tinha a intenção [de escrever um livro]. Fui escrevendo minhas crônicas, e o meu irmão disse “mana, reúne essas tuas crônicas e faz um livro, pra gente não esquecer o que passou” – explica.

De acordo com a autora, nos textos, são abordados diversos temas, como a doença, a demora na disponibilização da vacina, a atuação do Governo Federal à época, e outros fatos que ocorreram enquanto o mundo voltava as atenções para a pandemia.

Na quarta-feira (09), também às 16h, será a vez de Porto Alegre receber o lançamento de Vai passar, no Bistrô Dom Cafellone (Avenida Iguassu, 418 – Petrópolis).

O livro, que foi produzido e editado pela sobrinha da autora, a diretora da Editora Essência, Liège Alves, estará à venda por R$ 40,00, em Caçapava, na Dielo Produtora de Alimentos e na Komaco Materiais de Construção, e em Porto Alegre, no Bistrô Dom Cafellone.

A autora

Dona Zoé, como é carinhosamente chamada, nasceu em Caçapava, em 13 de janeiro de 1931, filha de Aliny e Avelino Silveira. A terceira dentre cinco irmãos – Maria Augusta, Doroty, Geraldo e Regina –, ainda pequena, mudou-se com a família para Cachoeira do Sul, quando o pai, que era contador, foi convidado a trabalhar em um engenho de arroz. Aos nove anos, voltou para sua cidade natal, mas, como as escolas daqui ainda não tinham o ginasial, aos 13, retornou a Cachoeira, junto da irmã Doroty, para estudar.

– Eu adorava morar em Cachoeira, era uma cidade bem mais evoluída que Caçapava. Aqui, fiz o primário e passava as férias. Lá, estudei na João Neves, uma escola avançadíssima para a época. Naquele tempo, o governo havia mandado construir escolas-modelo, e uma foi a João Neves, onde tive a sorte de ter professores maravilhosos – declara.

Também em Cachoeira, Dona Zoé concluiu o curso Normal e tornou-se professora. Foi em São Sepé que ela começou a lecionar.

– Fiquei dois anos lá e me apaixonei pela cidade. Achei o povo muito acolhedor, festeiro e brincalhão. Logo fiz amizades – comenta.

Depois de nove anos fora de Caçapava, ela voltou à cidade como professora do Instituto Dinarte Ribeiro. Aqui, também deu aulas nas escolas Nossa Senhora da Assunção (Estadual) e Santíssimo Nome de Jesus (o Colégio das Irmãs) e no antigo curso de Comércio, que deu origem ao atual Curso Técnico em Contabilidade.

– Nosso lema da formatura era “Educar é amar”. Naquele tempo, as professoras ainda eram de colocar [os alunos] de castigo, e eu vim com outra [forma de atuar]. Cheguei no Dinarte Ribeiro, e tinha alunos que eram terríveis, não obedeciam. Eu os tratei de outro jeito, e eles ficaram um encanto! Claro que tive meus problemas, alguns alunos não foram tão bons, mas geralmente tive só vantagens, gostava dos colegas e tudo – diz.

O gosto pela leitura e pela escritura

Anna Zoé Cavalheiro conta que, desde criança, sempre gostou de ler e de escrever. Seu pai e seu dindo – na casa de quem passava férias e, mais tarde, morou durante o primeiro ano de estudos em Cachoeira – incentivavam a ela e aos irmãos.

– Líamos Monteiro Lobato, revistas, gibis… Papai, quando viajava, trazia livros pra nós. Me lembro que um se chamava A casa das três rolinhas. Depois, eram romances. Eu adorava! Na casa do dindo, havia redes e cadeiras, e nos sentávamos para a hora da leitura. Todo mundo gostava de ler – lembra.

A escrever, Dona Zoé começou na adolescência, mas, nessa época, apenas as amigas que também tinham esse hábito conheceram seus textos. Os primeiros que vieram à luz foram os produzidos nas oficinas de criação literária de Alcy Cheuiche. Em Entre o real e o imaginário, há três contos seus, e ela também fez parte do grupo que escreveu Baby Pignatari: o centauro de bronze. Depois, junto à irmã Maria Augusta, lançou o livro de crônicas Um olhar para a vida. Mas, de acordo com ela, essa experiência prévia não é suficiente para anular o nervosismo pelo lançamento de Vai passar.

Como colaboradora de jornais, começou na década de 1980, escrevendo de forma anônima para o Atualidade, aqui de Caçapava, até ser “desmascarada” por outro colaborador.

– Era no tempo da ARENA, e ele era um fanático. Eu escrevia uma coisa, e ele reclamava. Um dia, ele disse que sabia quem era, disse no jornal que era eu. Aí, um senhor que morava em Santaninha começou a me dar apoio, e eu o apoiava também. Era a política. Eu nunca fui de me agarrar a um partido, mas às ideias de um e de outro – relata.

Quando o periódico parou de circular, Dona Zoé começou a escrever esporadicamente para a Gazeta, até que ela e a irmã, Maria Augusta, foram convidadas pelo diretor, Gasparino Leal Marques, a manter uma coluna. Assim nasceu “Um olhar para a vida”, que, todas as semanas, os leitores fiéis de Dona Zoé encontram na página 02. Neste espaço, ela comenta fatos do cotidiano, relembra momentos de sua história pessoal, pede por melhorias para Caçapava e defende seus colegas de profissão, dentre outros temas.

– De vez em quando, me revolto com o governo, por exemplo, tratando do magistério aposentado, porque a gente, quando se aposenta, está mais velho, precisa pagar acompanhantes, e o salário, em vez de aumentar, vai cada vez diminuindo. E as taxas aumentam. Agora vai aumentar o IPE – critica.

Seus textos atraem a muitos leitores, que a procuram ou se aproximam quando a encontram pela cidade para comentá-los e incentivá-la a seguir escrevendo. Mas não só aos caçapavanos suas crônicas agradam.

– Tenho um amigo que ainda não conheço. Ele mora em Porto Alegre, é colega de um sobrinho meu. Começou a ler as minhas crônicas e gostou. Então, ele me manda recados, me incentiva. Me disse que eu sou a comunista favorita dele [risos]. Quando penso que tenho de parar, essas coisas me dão forças, e acho que tenho de continuar enquanto puder – afirma.

Além do Atualidade e da Gazeta, Dona Zoé também colaborou com a Folha do Sul. Para escrever seus textos, segue uma rotina. Se dedica a eles às terças-feiras pela manhã, começando entre 10h30min e 11h. Ela diz que, às vezes, já sai da cama sabendo o que irá escrever, mas, em outras, precisa parar e pensar no que lhe tocou mais de perto na última semana.

Foto: Isabela Oliveira